A modinha dos plate carriers

Virou moda! Atualmente é muito comum ver colegas deixando de usar o colete balístico convencional para adotar os “plate-carriers” ou porta-placas nível III ou IV. Muitas vezes, o “recheio” nem é com a placa e sim com um painel balístico flexível cortado, geralmente de mantas de kevlar. Tais policiais argumentam que o objetivo é ter mais mobilidade e conforto. Será que realmente vale a pena fazer isso?

Antes de responder essa pergunta, vou explicar para que servem esses plate-carriers. Eles são muito comuns nas operações em cenários de combate em que o oponente emprega fuzis. Ao contrário que muitos pensam, a maioria das placas nível III ou IV NÃO DISPENSAM o uso do colete balístico convencional! Neste caso, o objetivo da placa é deformar o projetil, deixando parte da proteção Balistica para o colete, bem como a atenuação do trauma contundente do tiro.

Apenas placas “stand alone” podem ser usadas sem o colete por baixo. Geralmente essas placas são empregadas com o objetivo de reduzir o peso carregado e melhorar a mobilidade do operador, mas isso em cenários em que o colete será usado por longos trajetos e/ou por um tempo considerável, como é o caso dos combates no oriente médio e no Rio de Janeiro. Ainda há que se considerar que nesses casos praticamente não são usadas armas curtas, uma vez que a placa oferece uma área de proteção muito menor do que o colete!

Observando a imagem a seguir, vemos que o plate protege uma região extremamente importante, onde estão órgãos vitais e extremamente vascularizados…. Como diz o meu amigo e eterno professor @docmaniglia, é a área do “fudeu”, ou seja, se a pessoa toma um tiro nessa região, corre sério risco de morte!

Área de proteção do plate

Já na próxima imagem vemos a área de proteção do colete balístico, que é consideravelmente maior que a área do plate. Note também que há uma linha amarela tracejada na imagem. Essa linha representa a área de proteção efetiva do colete, uma vez que as bordas são pontos de fragilidade da estrutura. Se o projétil atinge uma região até 1”(uma polegada ou 2,5 centímetros) distante da borda, o tecido do colete irá se dobrar e o projétil muito possivelmente vai conseguir penetrar no corpo!

Mas aí você pensa: “Ah! Mas o plate protege o essencial!” Sim e não! A área não protegida pelo plate é a área do ferrou! Se a pessoa toma um tiro nessa região, também corre risco de morrer! Ainda, a proteção desses coletes é mostrada frontalmente, porém os tiros nas situações de combate podem vir de várias direções! Assim, caso o projétil tenha incidência oblíqua, pode entrar em uma área não protegida pelo plate e atingir a região do fudeu!

Área de proteção do colete

A tabela abaixo, extraída do LEOKA-FBI, mostra as estatísticas de mortes de policiais enquanto usavam o colete balístico, considerando a região em que o colete foi atingido. Note que a maioria dos casos de morte ocorreu porque o projétil entrou em uma área do tronco NÃO coberta pelo colete! Considerando que a área de cobertura é menor ainda, o risco de morte é MAIOR!!!

Tabela de mortes

Todas as considerações acima estão sendo feitas para o operador usando um painel nível III ou IV no plate carrier, porém o que muitos vem fazendo é cortar um colete balístico para que fique do tamanho do plate carrier! E aí?

Tenho visto várias pessoas, inclusive instrutores de tiro, cortando o colete balístico para que ele caiba no plate carrier. Essas pessoas fazem isso argumentando que assim terão mais mobilidade, e realmente terão! Mas, será que vale a pena?

Essa fragilidade, na margem de uma polegada, acontece mesmo com a costura feita pelo fabricante para união entre as diversas camadas de tecido. Quando a pessoa corta o colete, certamente não conseguirá fazer uma costura semelhante a do fabricante, de maneira que a borda de fragilidade do colete será ainda maior! Ou seja, a área de proteção oferecida pelo colete cortado será ainda menor que a área de proteção do plate! Veja na imagem como essa redução é significativa!

Borda de fragilidade



Dependendo da arquitetura do colete, pode ser que as placas não fiquem unidas o suficiente, tornando-o totalmente frágil!

O maior problema disso é que as pessoas ficam com uma falsa sensação de segurança, pois pensam estar protegidas quando na verdade não estão!

O colete balístico é grande, pesado e desconfortável mas prefiro bancar e estar protegido do que usar algo que simplesmente não funciona! Se você está achando sugado usar um colete, recomendo de trabalho melhor o seu condicionamento físico e não reduza a sua segurança! É justamente o argumento de perda de mobilidade que muitos policiais antigos usavam para não usar colete nenhum! Hoje sabemos da redução significativa das mortes de policiais em virtude do uso de coletes!

No caso de instrutores de tiro que fazem isso, acho muito pior! Como formadores, estão ensinando através do exemplo, algo que coloca em sério risco a vida de quem emprega!

Vou fechar essa postagem, trazendo um caso concreto em que a vida do operador foi salva justamente porque ele não aderiu a modinha dos plate carriers!

Para finalizar sobre a modinha tacticool do momento, vamos analisar este caso concreto que ocorreu com um militar do Exército em missão no RJ…
Ele estava equipado com um colete balístico nível IIIA e com um plate nível III. Durante a missão ele foi atingido na região lombar, no ponto circulado na imagem 2. A imagem 3 mostra o detalhe do orifício. Note que a região corresponde à coluna lombar. .
A imagem 4 mostra o plate e o círculo mostra uma pequena deformação na borda, que foi produzida pelo impacto de um projetil de calibre 7.62x51mm NATO. A imagem 5 mostra a danificação em detalhe. .
A imagem 6 mostra o colete balístico e o circulo indica o ponto de impacto do projetil, detalhado na imagem 7, após o corte da capa de cobertura do colete.

É importante notar que se não fosse pelo colete balístico corretamente usado por baixo, na melhor das hipóteses o militar estaria paraplégico! Isso se ele sobrevivesse, pois um tiro nessa região é extremamente complicado! Note também o que eu digo da área de proteção do colete! Se fosse um tiro de pistola em um colete cortado e colocado em um plate carrier, certamente o projetil teria atingido a vítima, pois a borda iria se fletir e entrar!

Este caso é um dentre vários! Espero que depois dessa breve saga as questões relativas ao plate carrier estejam esclarecidas! Se eu consegui convencer sequer um operador a não usar um colete balístico cortado no plate carrier, para mim já vai ter valido a pena!

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